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residência médica · saúde mental

Assédio moral na residência médica: o que ninguém denuncia e por quê

42% dos residentes já sofreram assédio moral. 63,4% relatam abuso em algum momento da formação. A maioria não denuncia por medo de retaliação, e quando denuncia, raramente chega a algum desfecho. Este artigo traz os dados, nomeia os mecanismos do silêncio e explica o que o residente pode fazer.

Médico residente em corredor de hospital representando assédio moral e pressão na formação médica

Os números que a medicina conhece e a instituição prefere não discutir

42% dos médicos residentes no Brasil relatam ter sofrido assédio moral durante a formação, segundo dados do CREMESP. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Educação Médica, conduzido em hospital universitário, encontrou prevalência de 41,9% entre 105 residentes entrevistados. E o livro "Assédio Moral na Formação Médica: conscientizar para combater", também do CREMESP, cruzou dados de diversas pesquisas internacionais e chegou a uma taxa de 63,4% de residentes que relatam assédio em algum momento da formação. Em alguns hospitais específicos, esse número ultrapassa 60% mesmo em levantamentos internos.

Para contextualizar o que esses números significam na prática: em 2022, todos os seis R1 de neurocirurgia da USP desistiram do programa. O ambiente era descrito, em relatos que circularam à época, como um dos mais hostis do país, com a frase "só sobrevive quem trabalha calado" aparecendo em diferentes versões. Um ano antes, na Unicamp, todos os residentes de ortopedia e traumatologia do primeiro ano também pediram desligamento. Carga horária excessiva, ausência de supervisão adequada e cultura de abuso foram os motivos apontados. Em 2019, mais de 1.160 residentes abandonaram seus programas em todo o Brasil, segundo levantamento disponível à época.

O assédio moral na residência médica não é episódico nem marginal. É estrutural. Está documentado em estudos desde os anos 1990, quando os primeiros pesquisadores começaram a nomear o que era chamado de "terror psicológico no ambiente de trabalho". Passou por décadas sendo justificado como "característica da especialidade" ou "tradição institucional". E continua presente, em 2026, em números que não mudaram significativamente nas últimas duas décadas.

  • 41,9% a 63,4% dos residentes relatam assédio moral
    A variação depende da especialidade, do hospital e da forma de coleta. Mas nenhum levantamento encontrou prevalência abaixo de 40% quando a pergunta foi feita de forma anônima e com definição clara do que é assédio.
  • Preceptores e coordenadores são os principais assediadores
    40,7% dos casos têm preceptores como responsáveis, seguidos por coordenadores com 29,1%. São exatamente as pessoas que controlam as avaliações, o acesso às cirurgias e a emissão do certificado de conclusão.
  • Mulheres sofrem mais sequelas, mesmo com prevalência semelhante
    O estudo da RBEM mostrou que a prevalência de assédio entre homens e mulheres não foi estatisticamente diferente, mas 58,5% das sequelas relatadas por mulheres foram de origem psíquica, contra proporção menor entre homens. O assédio de gênero aparece com força em especialidades cirúrgicas.
  • 84,85% dos estudantes não conhecem os canais formais de denúncia
    Pesquisa de 2026 publicada na Revista de Geopolítica com estudantes de medicina mostrou que a esmagadora maioria desconhece as instâncias disponíveis para denúncia, evidenciando fragilidade institucional que começa antes da residência.

O que configura assédio moral: a linha entre hierarquia e abuso

Assédio moral é qualquer conduta abusiva, intencional e repetida que fira a dignidade ou a integridade do residente, ameaçando sua formação ou degradando o ambiente de aprendizado. A distinção entre hierarquia e assédio é uma das mais discutidas na medicina, porque a residência é, por definição, um ambiente hierárquico. O CREMESP define com clareza: hierarquia profissional é o ordenamento de poder para que superiores orientem subordinados, dentro dos limites éticos. Assédio começa quando esse poder é usado para humilhar, punir arbitrariamente ou destruir a dignidade de quem está abaixo.

Isso é hierarquia

Cobrar cumprimento de protocolos. Dar feedback crítico após erro clínico. Exigir presença nos plantões. Avaliar o desempenho técnico do residente. Determinar quais procedimentos o residente pode realizar de acordo com sua fase de formação.

Isso é assédio

Humilhar o residente na frente de pacientes ou equipe. Fazer críticas ou "brincadeiras" de mau gosto repetidamente. Atribuir erros inexistentes. Forçar jornadas além de 60 horas semanais sem justificativa. Negar alimentação, descanso ou folgas previstas em lei. Excluir da formação cirúrgica por razões que não sejam de competência técnica. Ameaçar reprovação ou desligamento como forma de controle comportamental.

O Código de Ética Médica, no artigo 56, veda explicitamente ao médico "utilizar-se de sua posição hierárquica para impedir que seus subordinados atuem dentro dos princípios éticos". O mesmo código proíbe condutas que degradem a dignidade profissional de colegas. O problema é que a maioria dos residentes que sofre assédio desconhece esses dispositivos ou acredita, com razão, que a denúncia dentro da instituição vai resultar em represália, não em apuração.


Por que a maioria não denuncia: a anatomia do silêncio

O silêncio dos residentes diante do assédio não é passividade: é uma resposta racional a uma estrutura de poder que pune quem fala e protege quem abusa. Uma médica especialista em cirurgia geral, ouvida pela Folha de S. Paulo em dezembro de 2025 com o nome alterado para Silvia, resumiu com precisão o que os estudos confirmam: "As denúncias são subnotificadas e desencorajadas por chefes. Se souberem que você denunciou, provavelmente sofrerá retaliação. Na maior parte das vezes, a denúncia não leva a nenhum desfecho."

Mecanismo 1

O assediador controla a avaliação e o certificado

O preceptor que assedia é, na maioria dos casos, a mesma pessoa que assina a avaliação semestral do residente, decide quais cirurgias ele pode fazer e tem influência sobre a emissão do certificado de conclusão. Denunciar essa pessoa dentro do hospital é, para muitos residentes, tecnicamente inviável. A relação de dependência é total.

Mecanismo 2

A COREME é interna à própria instituição

A Comissão de Residência Médica do hospital, a COREME, é o primeiro canal interno de denúncia. Ela é composta por médico supervisor e coordenador da própria instituição. Em ambientes onde o assédio é praticado por essas figuras ou com sua conivência, o canal de denúncia está comprometido antes da denúncia chegar. O residente pode se sentir ainda mais exposto ao protocolar uma queixa para quem faz parte do mesmo sistema de poder.

Mecanismo 3

A normalização como ensinamento implícito

A formação médica ainda carrega, em muitos ambientes, a ideia de que o sofrimento é pedagogicamente necessário. "Quem não aguentar não serve para a medicina" é uma frase documentada em relatos de múltiplos hospitais. Quando o próprio sistema de formação sinaliza que suportar abuso é sinal de aptidão, o residente aprende a interpretar o assédio como parte do processo, não como violação.

Mecanismo 4

A desistência silenciosa como "solução"

Muitos residentes resolvem o problema abandonando o programa, sem formalizar a razão real. O dado de mais de 1.160 desistências em 2019 captura a saída, não o motivo. Quando a evasão é tratada como dado estatístico, e não como sinal de disfunção institucional, o ciclo se mantém intacto.

Mecanismo 5

O desconhecimento sobre o que é direito

84,85% dos estudantes de medicina não conhecem os canais formais de denúncia. Boa parte dos residentes não sabe que existe limite legal de 60 horas semanais, que há direito a 11 horas de descanso entre jornadas, que há direito a 30 dias de férias por ano, ou que a CNRM tem canal próprio de denúncia. Sem conhecer os direitos, é impossível reconhecer a violação.

"As denúncias são subnotificadas e desencorajadas por chefes. Se souberem que você denunciou, provavelmente sofrerá retaliação. Na maior parte das vezes, a denúncia não leva a nenhum desfecho."

Médica especialista em cirurgia geral, nome alterado. Folha de S. Paulo, dezembro de 2025


O que o assédio faz com o residente: dados de saúde mental

O impacto do assédio moral na saúde mental dos residentes é mensurável e grave: 58,5% das sequelas relatadas por mulheres vítimas de assédio em residências são de origem psíquica, e a depressão pode acometer 29,8% dos residentes já ao final do primeiro ano de programa. O estudo de Rosen e colaboradores, publicado nos Estados Unidos, comparou o estado de saúde mental dos residentes ao entrar na especialização e ao final do R1. Ao iniciar, 4,3% apresentavam quadros depressivos. Após concluir o R1, 29,8% estavam com depressão.

No Brasil, levantamento publicado na Revista Brasileira de Educação Médica mostrou que 32,1% dos residentes apresentavam exaustão emocional, 11% despersonalização e 33,9% reduzida sensação de realização profissional. Esses são os três eixos da síndrome de burnout. Pesquisa posterior encontrou que, entre residentes com alto risco de burnout, 70,58% relataram algum tipo de pensamento suicida.

O impacto não fica no residente. O psiquiatra Marcel Fúlvio Padula Lamas, do Hospital Albert Sabin, afirma que "ambientes hostis no início da carreira aumentam o risco de erros, reduzem empatia e comprometem a relação médico-paciente". O residente que foi formado sob assédio tem maior probabilidade de reproduzir o mesmo padrão quando se tornar preceptor, perpetuando um ciclo que a literatura chama de "aprendizagem pelo sofrimento" e que nenhuma melhora técnica no currículo consegue romper sem mudança cultural explícita.


Especialidades com maior concentração de relatos

As especialidades com hierarquias mais rígidas e maior pressão técnica concentram os relatos mais graves de assédio moral, abuso de autoridade e ambiente hostil na residência médica. Não é coincidência: são as mesmas especialidades com maior índice de evasão de vagas e onde os casos públicos de desistência coletiva ocorreram.

Cirurgia geral e especialidades cirúrgicas

Maior volume de relatos públicos de humilhação em sala cirúrgica e discriminação de gênero. Médica ouvida pela Folha relatou: "Incontáveis vezes somos humilhados em cirurgias ou até mesmo na frente dos pacientes." Chefes que permitem que residentes homens operem e impedem as mulheres aparecem em múltiplos depoimentos.

Neurocirurgia

Em 2022, todos os seis R1 de neurocirurgia da USP desistiram coletivamente. O ambiente era descrito como de pressão extrema e abuso sistemático. O caso virou símbolo público do problema e forçou o hospital a instaurar investigação interna.

Ortopedia e traumatologia

Em 2021, todos os R1 de ortopedia da Unicamp pediram desligamento coletivo. Carga horária excessiva, falta de supervisão e cultura de abuso foram apontados. A especialidade tem tradição de hierarquia rígida e baixíssima proporção de mulheres, o que amplia a dinâmica de poder.

Anestesiologia e medicina intensiva

Alta pressão técnica, decisões de vida ou morte em ritmo acelerado e hierarquia rígida criam ambiente propenso ao abuso de autoridade. Aparecem com frequência em pesquisas sobre burnout e ideação suicida entre residentes.


Seus direitos como residente: o que a CNRM determina

O residente médico tem direitos definidos em lei e em resoluções da CNRM que muitos programas descumprem sistematicamente, e que muitos residentes desconhecem. Conhecer esses direitos é o primeiro passo para identificar quando a linha foi ultrapassada.

  • Carga horária máxima de 60 horas semanais
    Com acréscimo de até 12 horas de plantões, respeitando intervalo mínimo de 36 horas entre eles. Forçar o residente a trabalhar 80 ou 100 horas semanais, como relatado em múltiplos depoimentos, é ilegal e configura descumprimento de resolução da CNRM.
  • 11 horas consecutivas de descanso entre jornadas
    O intervalo mínimo de descanso diário é obrigatório para permitir recuperação física e mental adequada. Sua negação, quando sistemática, configura sobrecarga ilegal além de ser fator de risco para erros clínicos.
  • 30 dias de férias anuais remuneradas
    Podem ser fracionadas em dois períodos de 15 dias. Negar ou reduzir as férias sem justificativa legal é violação de direito reconhecido pela CNRM.
  • Auxílio-moradia obrigatório desde 2025
    O Decreto nº 12.681/2025 tornou obrigatória a oferta de moradia institucional ou auxílio financeiro equivalente a 10% da bolsa. O residente deve formalizar a solicitação à coordenação do programa com documentação básica.
  • Direito à supervisão adequada
    O preceptor tem a obrigação de orientar e supervisionar as atividades do residente. Abandono do residente sem supervisão, especialmente em procedimentos de risco, é violação do programa e pode configurar negligência de preceptoria perante a CNRM.

Como denunciar: instâncias, caminhos e o que documentar

O residente que sofre assédio moral tem múltiplas instâncias disponíveis para denúncia, em ordem crescente de independência em relação à instituição onde trabalha. O princípio geral antes de qualquer ação é documentar. Reunir o histórico dos fatos com datas, locais, nomes dos envolvidos, testemunhas e qualquer evidência escrita ou por mensagem é o passo que precede e sustenta qualquer denúncia.

1
COREME — Comissão de Residência Médica do hospital

Denúncia formalizada por escrito e protocolada ao secretário da comissão. É o canal mais imediato mas também o mais exposto, por ser interno à instituição. Avaliar bem se o assediador tem relação direta com a COREME antes de iniciar por aqui.

2
CEREM — Comissão Estadual de Residência Médica

Canal interligado à CNRM, com maior independência da instituição. Pode apurar fatos relacionados a assédio. Opção mais segura quando a COREME não oferece proteção real.

3
CNRM — Comissão Nacional de Residência Médica

Canal federal de denúncia: denuncias.residencia@gmail.com. Instância independente com competência para apurar irregularidades em programas credenciados, incluindo descumprimento das resoluções sobre carga horária e ambiente de trabalho.

4
ANMR — Associação Nacional dos Médicos Residentes

Canal de apoio e orientação: anmr@anmr.org. A ANMR pode orientar o residente sobre os melhores caminhos para a situação específica e encaminhar para as instâncias adequadas.

5
CRM estadual e ação judicial

O CRM pode apurar infrações ao Código de Ética Médica pelo assediador. A ação judicial é o caminho com maior potencial de responsabilização e reparação, mas também o mais longo. A orientação de advogado especialista em Direito Médico é recomendável antes de qualquer dessas instâncias.

O que documentar antes de denunciar

Data, hora e local de cada episódio. Nome completo do assediador e de qualquer testemunha presente. Descrição objetiva do que aconteceu, sem adjetivos, focada nos fatos. Capturas de tela de mensagens ou e-mails quando houver. Registro do impacto na saúde ou no desempenho quando relevante. Esse conjunto de informações é a base de qualquer processo, seja administrativo, ético ou judicial.


O que outros países fazem e o Brasil ainda não implantou

As experiências internacionais com maior impacto na redução do assédio em residências médicas compartilham uma característica: protegem quem denuncia antes de punir quem abusa. Sem proteção ao denunciante, a maioria do silêncio permanece intacta.

Estados Unidos

Limite legal de 80 horas semanais (contra as 60 do Brasil, frequentemente desrespeitadas). Avaliação anônima obrigatória de programas pelos residentes. Acreditação de programas depende dessas avaliações. Existência de sindicatos de residentes com poder de negociação real.

Reino Unido

Programa Freedom to Speak Up Guardians, com ombudsmans independentes nas instituições de saúde para receber denúncias anônimas com proteção formal ao denunciante. Resultado mensurável em aumento de denúncias e redução de casos não resolvidos.

Austrália

Ranking público dos melhores hospitais para residentes, divulgado anualmente. A transparência cria pressão institucional para melhora, porque afeta a capacidade de atrair bons candidatos. Hospitais com histórico de assédio têm dificuldade de preencher vagas.

Brasil

Carga máxima legal de 60 horas com fiscalização falha. Sem avaliação anônima obrigatória de programas. Sem ranking público de ambiente de trabalho. Sem ombudsman independente para residentes. A ANMR e alguns CRMs estaduais têm feito pressão por mudanças, mas a regulação federal ainda não avançou na proteção ao denunciante.


Perguntas frequentes

Respostas diretas sobre assédio moral na residência médica.

O que configura assédio moral na residência médica? +
Conduta abusiva, intencional e repetida que fira a dignidade do residente ou degrade o ambiente de aprendizado. Inclui humilhações em público ou frente a pacientes, sobrecarga ilegal de jornada, negativa de direitos, ameaças veladas de reprovação e exclusão de atividades formativas sem justificativa técnica.
Qual é a prevalência de assédio moral na residência médica no Brasil? +
Estudos brasileiros apontam prevalência entre 41,9% e 63,4%, dependendo da metodologia e da especialidade. O CREMESP indica que cerca de 42% dos residentes relatam ter sofrido assédio. Em alguns hospitais, o número ultrapassa 60%.
Por que residentes não denunciam o assédio moral? +
Medo de retaliação de quem controla avaliações e o certificado, ausência de canais independentes dentro do hospital, percepção de que a denúncia não resulta em nada, normalização do abuso como parte da formação e desconhecimento sobre direitos e instâncias disponíveis.
Como denunciar assédio moral na residência médica? +
Em ordem de independência: COREME do hospital (por escrito, protocolado), CEREM estadual, CNRM pelo e-mail denuncias.residencia@gmail.com, ANMR pelo e-mail anmr@anmr.org, CRM estadual ou ação judicial. Em todos os casos, documentar fatos com datas, locais e nomes é essencial antes de iniciar o processo.
Quais especialidades têm mais assédio na residência médica? +
Cirurgia geral, ortopedia e traumatologia, neurocirurgia e anestesiologia concentram os relatos mais graves. Em 2022, todos os R1 de neurocirurgia da USP desistiram coletivamente. Em 2021, o mesmo ocorreu com os R1 de ortopedia da Unicamp. Ambos os casos foram associados a cultura de abuso e ambiente hostil.
Qual é a carga horária máxima legal de um residente médico no Brasil? +
60 horas semanais, com acréscimo de até 12 horas de plantões, respeitando intervalo mínimo de 36 horas entre eles e 11 horas de descanso diário entre jornadas. Forçar o residente a trabalhar 80 ou 100 horas é descumprimento direto de resolução da CNRM.

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