International orders at: wearbip.com

 


carreira médica · identidade profissional

A cultura da medicina brasileira está mudando? O que os residentes de hoje pensam sobre hierarquia e sofrimento como formação

Uma geração de médicos está recusando o sofrimento como rito de passagem. Os desligamentos coletivos na USP e Unicamp não foram anomalias: foram o sintoma visível de uma transformação que está em curso há anos, documentada em pesquisas e ainda silenciada por estruturas que têm interesse em manter o modelo.

A medicina brasileira sempre teve essa cultura, mas agora ela está sendo nomeada

A cultura hierárquica rígida na medicina brasileira não é nova. O que é novo é a disposição de uma geração de profissionais de chamá-la pelo nome e de agir coletivamente quando as condições se tornam insustentáveis.

Durante décadas, o sofrimento na residência foi enquadrado como formação. A carga horária de 80, 90, 100 horas semanais era apresentada como inevitável. O assédio de preceptores era descrito como método pedagógico. A humilhação pública durante cirurgias ou visitas era normalizada como preparo para a pressão real do exercício profissional. Quem reclamava era visto como fraco demais para a profissão.

Os dados de pesquisa nunca sustentaram essa narrativa. O que os estudos mostram é que carga horária excessiva aumenta erros médicos, que burnout reduz a qualidade do atendimento e que ambientes hostis provocam evasão das especialidades mais críticas. Mas a narrativa persistiu porque quem poderia contestá-la era exatamente quem tinha mais a perder ao fazê-lo.


O que os desligamentos coletivos revelaram sobre a estrutura, não sobre os indivíduos

Quando todos os seis R1 de Neurocirurgia da USP pediram desligamento em 2022, a reação mais comum foi tratar o episódio como problema daquele grupo específico ou daquele programa específico. Mas um ano antes, todos os R1 de Ortopedia da Unicamp tinham feito o mesmo. E os relatos que circularam em grupos de residentes depois desses episódios deixaram claro que a experiência descrita pelos que saíram era reconhecível para profissionais em dezenas de outros programas, em especialidades diferentes, em estados diferentes.

O que esses episódios revelaram não foi a excepcionalidade de um ambiente ruim. Revelaram que o custo de sair coletivamente finalmente ficou menor do que o custo de ficar. Isso é um sinal de transformação cultural, não de fraqueza individual.

"Ainda existe uma percepção popular de que o médico deve seguir uma jornada de altruísmo e abdicação, com um certo fator místico, mas que, na sociedade de hoje, é uma percepção que não se sustenta."

Médico recém-formado que optou por não fazer residência, entrevistado pelo O Povo, dezembro de 2025.


O que a nova geração está recusando e o que está construindo no lugar

A geração de médicos que está entrando na residência agora não está recusando o trabalho duro. Está recusando o sofrimento desnecessário disfarçado de formação. É uma distinção importante que costuma ser colapsada no debate público sobre o tema.

Médicos residentes querem competência técnica, exposição a casos complexos, supervisão de qualidade e autonomia progressiva. O que estão recusando é o modelo no qual a exposição ao risco, a carga horária irreal e a humilhação são tratados como componentes pedagógicos.

Essa distinção está presente nos dados da ANMR, nos relatos que circulam publicamente e na escolha crescente de médicos de avaliar programas de residência antes de se inscrever, de conversar com ex-residentes sobre o ambiente real e de considerar a qualidade de vida como critério legítimo de decisão de carreira, não como sinal de comprometimento insuficiente com a profissão.


Por que a estrutura resiste e o que isso custa ao sistema de saúde

A hierarquia rígida na medicina brasileira persiste não porque seja pedagogicamente eficaz, mas porque é funcionalmente conveniente para as instituições que dependem de residentes como mão de obra barata. Um residente com 68 horas semanais médias de trabalho, mais horas extras para complementar a bolsa, é um profissional subpago produzindo volume assistencial que o sistema público não conseguiria sustentar de outra forma.

Alcindo Cerci Neto, representante do CFM na Comissão Nacional de Residência Médica, nomeou o problema diretamente: o residente precisa ser reconhecido como profissional em formação, não como mão de obra barata. Esse reconhecimento implica mudanças de modelo que têm custo institucional real. É por isso que a resistência é estrutural, não apenas cultural.

O custo de não mudar também é real: 30% de vagas ociosas, evasão das especialidades mais críticas do sistema de saúde e formação de profissionais que chegam ao mercado já com burnout instalado. A medicina brasileira está pagando, e vai continuar pagando, pela manutenção de um modelo que os dados mostram ser insustentável.

O que a nova geração está recusando

Sofrimento como método pedagógico. Humilhação como preparo para pressão. Silêncio como profissionalismo. Carga horária irreal como prova de comprometimento. Abdicação como identidade de carreira.

O que está construindo no lugar

Avaliação de programas antes da inscrição. Conversas abertas sobre condições reais de residência. Denúncias coletivas quando o custo individual é alto demais. Tratamento de qualidade de vida como critério legítimo de decisão de carreira.


Perguntas frequentes

Respostas diretas sobre a mudança cultural na medicina brasileira e o que está em jogo.

A cultura da medicina brasileira está mudando de verdade? +
Sim, há evidências de uma transformação geracional em curso. A tolerância ao sofrimento como rito de passagem está diminuindo de forma mensurável. Os desligamentos coletivos na USP e Unicamp, o aumento de vagas ociosas (cerca de 30% segundo a ANMR) e a maior disposição para falar publicamente sobre assédio indicam uma mudança real, mesmo que as estruturas institucionais ainda não tenham se adaptado.
O sofrimento na residência realmente forma médicos melhores? +
Os dados não sustentam essa premissa. Estudos associam burnout a aumento de erros médicos, despersonalização no atendimento e evasão de especialidades críticas. A carga horária excessiva reduz a capacidade de aprendizado e aumenta o risco de erros. O argumento de que pressão extrema produz melhores profissionais não tem respaldo em evidências sobre qualidade do cuidado ou performance clínica.
Como a nova geração de médicos lida com a hierarquia hospitalar? +
Médicos recém-formados estão avaliando programas antes de se inscrever, conversando com ex-residentes sobre o ambiente real e, em casos extremos, pedindo desligamento coletivo quando as condições se tornam insustentáveis. A expectativa de respeito e clareza sobre regras é tratada como mínimo aceitável, não como privilégio. Uma parcela crescente está optando por não fazer residência para preservar saúde mental.
Quais especialidades têm cultura hierárquica mais rígida no Brasil? +
Cirurgia geral, neurocirurgia, ortopedia e cirurgia plástica são consistentemente apontadas em relatos e pesquisas como as especialidades com hierarquias mais rígidas e maior prevalência de assédio moral. Os desligamentos coletivos documentados em 2021 e 2022 ocorreram exatamente nessas áreas. São também as especialidades com maior diferença de tratamento relatada entre homens e mulheres.
O que médicos residentes podem fazer quando enfrentam assédio? +
Os canais formais existem, mas têm eficácia limitada: CREMESP, CNRM, ouvidorias hospitalares e ANMR. A denúncia coletiva tende a ter mais peso institucional do que a individual. Documentar sistematicamente os episódios desde o início é o passo mais importante, mesmo quando a denúncia formal ainda não parece viável. O risco de retaliação é real e deve ser levado em conta na estratégia de denúncia.

Explore os produtos bip

Três caminhos diretos para o que você mais usa na rotina.


bip insights

Continue sua jornada

Conteúdo para médicos, residentes e estudantes que exigem mais da carreira e do dia a dia.


bip. Transforme sua jornada.

bip Insights · março de 2026

Deixe seu comentário

Sua opinião é importante para a gente.

Chat Support

Support
Typically replies within an hour

Hi there 👋

How can I help you?
×